Écran, écran meu…

 

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Uma vez alguém extraordinariamente inteligente disse-me que não se podia utilizar o termo “futilidade” porque o que é fútil para um pode ser importante para outro. Confesso que esta é aquela coisa com a qual vamos discordar sempre… Quando olhamos à nossa volta, encontramos cada vez mais pessoas, tal como nós próprios, viradas para um écran. Muitas como uma fuga à solidão mas muitas outras como uma forma paralela de vida.  

É cada vez mais um modo de vida, viver em frente aos olhos do mundo… Como só assim o passeio a Barcelona valesse a pena, ou até mesmo o bolo de cenoura – que se hesita em fazer ou não esta tarde – nos valesse o esforço. Tudo começa a acontecer em função do outro (o que já seria mau em termos de autoestima) mas tão pouco em função do Outro presente… Antes do Outro desconhecido. Sem rosto, anónimo, que se adivinha algures no espaço virtual.

Os quinze minutos de fama que Andy Warhol previu estão aqui… Mas em vez de quinze minutos são dias inteiros de vidas inteiras.

Como é que chegamos então desta observação até ao meio escolar, até às crianças…? Acima de tudo é urgente puxá-las de novo para o “mundo real”… Para os amigos que se toca e nos tocam de volta, para os trabalhos em que se sujam as mãos, para os livros que se folheiam e se emprestam ainda com o nosso marcador entalado entre as páginas.

Para os dias de fim-de-semana no areal junto à linha do mar. Mesmo que chova e faça vento… Estar constipado faz parte de estar vivo para além de que, já repararam que é mais fácil constipar-nos a correr na passadeira do ginásio do que ao ar livre num dia repleto de chuviscos?…

A nossa mente, tal como o nosso corpo, pede-nos o mundo verdadeiro com os seus cheiros, com os seus declives, com as suas quedas… Qualquer cúpula de vidro com écran acoplado que nos separe dele física e psicologicamente, adoece-nos de uma forma muito mais grave: a da exclusão social… Na qual a depressão será colmatada não por abraços mas por cliques de gostos no telemóvel, tablet ou pc.

Não é isso que queremos para os nossos filhos… Queremos o “Orgulho e Preconceito” pousado por instantes sobre o sofá da sala e após um “Este livro é mesmo Eu!…” exclamado do nada. Queremos perguntas provenientes de mentes que pensam e inquirem… Queremos que a liberdade de pensamento não se resuma ao piscar ténue de um cursor sobre um qualquer écran. Queremos crianças que acreditam que existem para além do olhar do outro.

 

Catarina Correia dos Santos

Mestre em Psicologa Clínica e Directora do Projecto.

 

Foto: digitaltrends.com

 

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