Crianças Invisíveis.

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É muito difícil enquanto pais, por vezes, encontrar entre todas as horas do dia momentos totalmente dedicados aos nossos filhos. Momentos para conversar, para ajudar a pensar aquela questão de História ou de Ciências; basicamente, para parar e dar tempo ao outro. Mesmo se o outro tem apenas mais um corrupio de “novelas” para contar ou somente um silêncio emoldurado por uma procura de colo e de presença.

Tocam-me as crianças que são negligenciadas e abandonadas pelas famílias. Que enfrentam o “Não Gosto de ti” de uma forma tão brutal, tão jovens e de quem mais precisavam de ouvir o contrário. Sei tanto sobre as defesas psíquicas que nos permitem sobreviver a isso e, ainda assim, confesso que não faço a mínima ideia de como se sobrevive realmente a uma dor tão maior que nós próprios.

Não sei em que parte de nós, escondemos a criança que chora e que não podemos ser se queremos sobreviver. Suponho que num lugar escuro e distante, onde ela continua a chorar baixo mas já nem nós próprios a conseguimos ouvir. Como adultos é natural ter um lugar assim. Não há vida sem perdas. Não há amor sem desaparecimentos. Mas enquanto criança, algo me diz que devíamos ser poupados a isso.

Depois tocam-me as crianças invisíveis. Aquelas que não são abandonadas pelas famílias e logo, não podem chorar porque a falha que sentem parece vir mais de dentro delas do que de outro lado qualquer. Se ninguém me abandona, se ninguém me maltrata, é difícil dar um rosto e um nome à dor que se sente. A essa dor pequenina que advém da condição de invisibilidade ou quase invisibilidade.

Todos nós que trabalhamos, sabemos o contorcionismo inerente a conseguir estar presente para se ouvir as novelas, para se ajudar nos trabalhos, para se estar presente nos dias dos exames. Para se ouvir realmente. E, ainda assim, há crianças que vivem uma realidade paralela estranha. A realidade de uma mãe ou de um pai, que sabem o dia inteiro livres e que quando chegam da escola lhes veem acenar um “Até já!” antes de saírem para ir passar o seu “nosso” tempo com outras pessoas. Não um dia, não dois dias, mas quase todos. “Como se o meu chegar te levasse a partir. Porquê…?”. Um pouco como aquele “amigo” que estivesse sempre de saída quando nós chegássemos.

A criança começa a agitar-se dentro de si própria, a criar “situações” que lhe tragam atenção. Que lhe dêem de volta o seu “nosso” tempo. Pouco depois, chegará alguém com um rótulo de “disfuncionalidade” que lhe sirva sem ser “feito à medida”. Quando o devia ser. Centímetro a centímetro, vivência a vivência. A seu tempo, poderá surgir o apontar de dedo a um professor/a indubitavelmente culpado/a porque é mais fácil decidir que um estranho é mau professor, do que aceitar que nós estamos a falhar enquanto pais.

Com a idade, a criança tenderá a cair no marasmo e na inércia dos maus resultados, do pouco esforço e dos sonhos fora de limites. Quer tudo sem tentar realmente nada de corpo inteiro. É a criança invisível que mais tarde será aquele adulto que nós conhecemos, que ruge mas nunca se impõe; que deseja mas nunca se atreverá. Uma vida inteira aquém do que podia ter sido.

 

Catarina Correia dos Santos

Psicóloga Clínica e Fundadora d’ A Casa Amarela

 

Foto Copyright: Rose Water Magazine

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