A Casa Amarela Infantário

Um sítio perfeito para se crescer.

As Crianças e a Culpa

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As crianças têm com a culpa uma relação simples e sem ambiguidades. Fora do contexto “entre pares”, independentemente do acontecimento, se ninguém mais se acusa – e mesmo no caso de alguém se acusar – em última instância, a culpa é… “minha”. Entenda-se, delas crianças.

“Não faço ideia porquê; mas tenho a certeza absoluta que sim.”. Seja a discussão mais acalorada ou a “saída” silenciosa de alguém de casa… Seja a insatisfação que as migalhas de atenção lhes vão deixando, por vezes, por dentro. Seja o mau resultado que se traz porque não se percebeu à primeira. Devia-se ter percebido. Surge o sentimento de que devia saber-se não sentir o vazio e inclusive receber a desatenção de braços abertos e alma benevolente. Dentro da cabeça deles tudo gira tão depressa. Cada vez mais depressa. E, de um momento para o outro, eu criança, tenho a absoluta certeza, que são esses meus “erros” e essas minhas “exigências” por algo a que não tenho direito, que levam à zanga e à tristeza dos outros. Às suas separações. A cada um dos seus gestos impensados. Visto cá debaixo, é tão fácil sentirmo-nos responsáveis pelo mundo “feito à nossa medida” que desaba lá em cima.

Vão passar muitos anos até que percebamos que o mundo é como é. Não foi feito especialmente para nós. Embora sim, pareça ser exactamente assim quando aqui chegamos. Tudo se move à nossa volta. Tudo parece tão inacreditavelmente novo… Nasce uma responsabilidade estranha cá dentro.

Um dia perceberemos que o mundo já existia muito antes de nós; e continuará a existir muito para além de nós. Um dia entenderemos que os efeitos que podemos ter nele são modestos e que quase sempre o que faz mover os outros, nada tem a ver connosco, mas com eles próprios. Talvez possamos chamar a esse entendimento “amadurecer”. Um dia acontece. Mas aí já seremos adultos.

Para já, somos crianças. E é indispensável que se fale connosco. É indispensável que não se coloque na nossa boca e no nosso coração palavras, vontades e receios que não são nossos. É necessário que não se esconda o que pressentimos ainda antes de chegar a ser “palavra”; e que, se não for falado, estará a sós connosco no quarto à noite como um fantasma… “Porque é que o Pai saiu de casa?…”, “Porque é que não voltei a ver a Avó?…”, “Porque é que a Mãe tem tanto medo de coisas que as outras mães não têm?…”.

As crianças observam e sentem o mundo como se o mundo fosse água e mergulhassem e nadassem nele. Ainda pressentem na pele o que os adultos criaram barreiras para não sentir. É por isso inglório, o esforço de lhes tentar esconder algo. E absolutamente errado, deixá-las dessa forma, a sós com as “descobertas” que fazem.

Mais vale dizer que não se sabe o “porquê” do que fazer de conta que não se sabe o “quê”. O “porquê” pode-se tentar descobrir juntos. A negação de uma situação, apenas deixa espaço para o vazio, para o afastamento e para desistência do diálogo. E embora hajam inúmeras saídas para a culpa, o diálogo é aquela que nos permite crescer para além desse sentimento, de mãos dadas connosco próprios.

É claro que há sempre outros caminhos alternativos mais à frente. Há a opção pela negação da culpa, ou pelo deixar de querer saber e fazer tantos “erros” que entre eles, já não há sequer como encontrar a dita “culpa”… Mas esses são caminhos dolorosos e terrivelmente sós, apesar da por vezes aparente facilidade com que se percorrem. Esses não são os caminhos que queremos para as nossas crianças.

Um minuto de diálogo nosso com uma criança, vale horas de amor-próprio e de entendimento futuro dentro deles. De diálogo. Não de monólogo. Porque eles não são recipientes para tudo o que achamos que temos de dizer ou perguntar. E, tal como nós, às vezes têm todo o direito de estacionar dentro da sua “bolha pessoal”.

Uma questão igualmente interessante, é como muitos de nós, continuamos a ser essa criança até tarde. Muitas vezes, mesmo até hoje. Como a culpabilidade pode persistir, depois de todos os factos explicados e entendidos; depois de as situações terem ficado já há tanto perdidas no tempo. A culpa não conversada permanece como uma cicatriz. Porque é uma emoção que não encontrou um pensamento. E frequentemente essa cicatriz, tem o nome icónico de depressão.

É hoje que se pode mudar o amanhã.

 

Catarina Correia dos Santos

Psicóloga e Directora d’ A Casa Amarela

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Moody

 

Foto 1: Copyright ordiate.com

Foto 2: Copyright picgood.xyz

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