O Papel dos Alimentos

Os alimentos e o modo como gerimos a nossa relação com eles, diz muito acerca da forma como estamos com o que nos rodeia. O contraste entre como a fome aperta para alguns de nós quando ficamos sós, enquanto para outros o apetite desaparece e é substituído por um sem número de tarefas a cumprir, é uma janela para quem somos e, para a forma como gerimos a nossa relação com os outros, com as suas presenças e, especialmente, com as suas ausências.

Nas crianças isto é particularmente notório. É bastante comum as crianças não quererem aceitar comida num ambiente novo e desconhecido; e é importante que este direito à resistência e à preservação pessoal seja respeitado. Não será por não almoçarem três dias que ficam doentes mas, pode ser por se sentirem abusados no seu direito a dizer “ainda não” a algo que vem de alguém em quem ainda não confiam, que mais tarde, quando adultos, se sintam zangados e, muitas vezes, desprotegidos, face a acções mais invasivas de quem os rodeia.

A relação com a comida começa naquele momento em que um mal-estar interno (a fome), é saciado por um rosto ainda algo desfocado mas próximo. O facto desse rosto nos olhar ou não, nos sorrir ou não, falar connosco, escutar a nossa balbucia, ou apenas o nosso silêncio, será o princípio desse guião que moldará todas as nossas relações no futuro.

Talvez por aqui se possa começar a entender, porque é que na Casa Amarela brincamos tanto com comida. Porque é a brincar com estas coisas sérias, que nós aprendemos a estabelecer uma relação boa e pacífica com elas.

Catarina Correia Santos

Psicóloga Clínica

Coordenadora da Equipa Psicopedagógica  

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